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Divina Increnca

A Divina Increnca

por lucas rodrigues de campos


A Divina Increnca [DI] não foi só uma banda, nem um disco, foi além. Um conceito que extrai ao máximo o significado do título de um livro que encantou Azael, logo que este leu uma resenha na Folha de São Paulo escrita por um amigo dos tempos de universidade. Alexandre Marcondes Machado (1892 – 1933) encarnou Juó Bananére para registrar a italianada paulistana dos anos 20, as bellas figlia lá do Bó Ritiro, e (porque não?) para almejar a Gademia Baolista de Letras. Da vanguarda de 1922 para a segunda metade da década de 70: um estudo ao âmago do fazer música. Azael Rodrigues, baterista da banda define: “Divina Increnca era uma síntese do som do grupo. O nome é/era perfeito porque expressa a tensão dos contrários e faz essa brincadeira com o que é iconoclasta, o Divino”. Divina seria o som mais refinado, mais respeitoso para eruditos ranzinzas, e a “Increnca uma vontade de explorar, de tocar de forma jazzista”.

O pensador de música

Para entender a Increnca devemos prestar atenção às improvisações verbais do “pensador da música” Azael. “A música é feita de filosofia, é através de escolhas que a construímos. O DI foi um projeto para estudar as possibilidades da música a fundo”. A filosofia era a da “interpenetração dos gêneros, queríamos desenvolver uma linguagem diferenciada”. O trio (inicialmente duo com Azael e Felix Wagner) tinha a preocupação de assimilar cada detalhe de tons, harmonias, ruídos e do silêncio. Procuravam construir “temas que iam ao fundo daquele conceito original”; o baterista aponta: “buscávamos a organicidade da música”.

“O instrumento (bateria) era legal, mas o pensamento musical era o que me atraía. Quando entrei na universidade passei a ouvir muita música erudita; Todo domingo ia a concertos com preços populares que ocorriam no Teatro Municipal, e, além disso, trabalhava com o maestro Rogério Duprat, no renomado estúdio Vice-versa”. Dentro da universidade Azael Rodrigues expandiu o leque erudito, enquanto, no sentido inverso, era impulsionado a se afastar da música popular: “O Olivier Toni (diretor da faculdade de música) dizia que Tom Jobim era uma merda”.

Apesar da aura elitista da faculdade (ECA-USP), Azael teve parcimônia para desfrutar da música dita clássica e, apaixonado pelos plebeus do jazz e do rock, proporcionou fantástica fusão dentro de grupos como o Pau-Brasil, Premê e no próprio Divina. O baterista, que teve sua primeira incursão percurssiva aos 15 anos, queria extrapolar os limites harmônicos. Nasceu em meio à bossa, ao be-bop, ao heavy metal dos anos 70, entre Beethoven e Mozart. Estupefato o músico ficou ao saber que o DI aparece em comunidades do Orkut e listas de discussão como uma banda de RIO (Rock in Oposition): “Sensacional! Eu tocava jazz com pegada, com volume”, explicou Azael.

Pouco tempo antes de entrar na academia, Azael brincou com o fusion. Em 1974, O Escaladacida (Azael, Ritchie “Vimana”, Fábio Gasparini e Sérgio) se aventurou com ecos da Mahavishnu Orchestra e King Crimson. Uma fita é o resultado disso. Como já é sabido, Ritchie passou a fazer parte do Vímana em 75 e convidou Azael para assumir as baquetas. Azael ouviu o som da nova banda, não gostou e recusou a proposta.

Os quatro meses que passou na Europa aglutinaram todo o espírito do jazz e da improvisação, que já eram declaradamente potenciais do músico. Depois dessa aventura, faltava só uma personagem para dar cria a espasmos mais atrozes e criativos – necessários para o revigoramento da música brasileira. “Uma gravação cheia de gente, e um piano me chamava a atenção; um garoto, Felix Wagner, emanava jazz. Tocava em um restaurante na represa de Guarapiranga, reduto da colônia alemã [trecho de Azael Rodrigues extraído do encarte do CD A Divina Increnca]”.

O homem de Wolfsburg

a divina increnca [1980] a divina increncaSe Azael queria buscar a organicidade da música, ele encontrou em Felix Wagner o parceiro ideal, já que este encarnava muito bem a idéia. “Minha ligação com a música sempre foi através de SONS! Conta-se, que, ainda na Alemanha, pra me tirar da casa do vizinho, onde havia um piano, tiveram que comprar um para mim. Eu devia ter uns seis ou sete anos, e SOM é aquilo que chamam de “sound” em música. Não são as notas em si, e nem o estilo da composição, mas sim aquilo que dentro daquele estilo e através daquelas notas FALA contigo.” O baterista tenta traduzir o baixo-saxão Wagner: “Sound, é a coisa do timbre, é o que arrepia”.

Com onze anos de idade, a música ocupava a semana inteira do jovem alemão. “A atividade musical na Alemanha era grande naquela época [anos 70], e assim eu me via fazendo música a semana inteira: ensaiava com a Bigband de jazz da escola de musica comunal – gostava do ‘sound’! Domingo tocava musica religiosa contemporânea – muito compasso composto! -, fazia jam-session com músicos das comunidades rurais alternativas, a maioria o dobro da minha idade (Fender Rhodes ‘seventy three’: que som!), acompanhava uma cantora lírica (sempre meio desconfiado de eu e ela sozinhos naquele apartamento todo cheio de tapetes), tocava numa banda de ‘Dixieland’ (a questão do som: tente ouvir qualquer coisa do trumpetista Ruby Braff! Freddie Hubbard vai te parecer um anêmico perto dele…!)”. Sobre as comunidades rurais, Felix teceu mais algumas palavras: “As comunidades não eram exatamente derivadas de movimentos políticos, mas de uma nova mentalidade social, simplesmente uma junção do fato de ter muita casa vazia nos campos da Alemanha com a vontade fazer de fazer música. E o pessoal reformava, instalava o que faltava, e passou a morar a zero de aluguel”.

contracapa“O músico deve falar por si”. Com diversas experiências, Felix Wagner considera todas as incursões como enriquecedoras. “Escrevi para trio e quinteto de sax, bigband, sinfonietta, formações jazzísticas e de instrumentação Orffiana. Fui tecladista ‘free’ (‘lyrics and jazz’), ‘pop’ e de ‘Varietê’. Toquei dois anos num forró nordestino em Berlim. E se algum destes trabalhos porventura não foi recompensador, pode ter certeza que fui eu que dormi no ponto”. A diversidade de Felix unida à fixação de alcançar o diferencial de cada som, característica de Azael, os levaram ao estudo de Ornette Coleman, Coltrane, Keith Jarret e Cecil Taylor. O pianista do Divina lembra suas influências, fontes que também constituíram o manifesto musical do DI, “sempre os ‘side-men’: Booker Erwin, Charlie Rouse e Paul Gonçalves (sax tenor), Dwike Mitchell, Wynton Kelly e Roger Kellaway (piano), Alan Dawson e Ed Blackwell (bateria). Agora, enquanto a composição gosto de tudo, desde que tenha ‘sound’!… Naturalmente estudei os grandes nomes também, mas confesso que mais utilizei os estilos deles quando necessário. De resto continuo fiel ao conceito de que o músico deve ‘falar por si’ (speak for himself)”.

Atrelado à força do que é tocado e não à ressonância emitida pela obra perante a indústria cultural, Felix desconsidera o fato de ter acompanhado, no palco, as “referências”: “Na época que isso aconteceu eu era muito novo e eles estavam em fim de carreira. Toquei com muita gente conhecida depois, mais nenhum destes jamais virou meu ídolo, talvez por que aquilo do ‘sound’ já não era moda.”.

Vanguarda

cd_divina6Shows com destaque nos jornais, críticas favoráveis. O impacto que o duo DI causou talvez já superasse a gênese de Bananére. Enquanto as sátiras do autor não haviam alcançado status digno de aparecer junto a totens como Oswald e Mário de Andrade, o DI figurava junto do Grupo Um, Nelson Ayres e outras crias do Teatro Lira Paulistana. “Erudito, mas com flexibilidade”, “De Hermeto Pascoal a John Cage”, estampavam páginas culturais de alguns jornais da capital paulista. Apresentavam-se junto de artistas convidados, mas o set das gigs variava, assim como os acompanhantes. No dia 26 de maio de 1978, apresentaram-se no MASP interpretando Jarret, Monk, McCoy Tyner, Ralph Towner, Hermeto, Egberto Gismonti, John Cage, além de composições próprias. Ainda como duo, [provavelmente em um épico show] receberam como convidado Lanny Gordin, executando “Power of Soul” de Hendrix.

Os estudos da dupla Azael/Felix atingiram um nível em que as discordâncias musicais eram o melhor caminho para o entendimento. O caminho para o “transcriar” [referência aos irmãos Augusto e Haroldo Campos] musical. Contudo havia a necessidade de mais um pilar para sustentar o, até então, duo. Algumas audições realizadas e um jovem baixista, ex-colega de Azael nos tempos do Colégio Equipe, resolve tentar a sorte. “Nervoso”. É o que recorda Azael da seleção de “Rodo”.

Híbridos: Symetric Ensemble

Rodolfo Stroeter, ainda jovem, na faixa dos 20 anos, ingressou no DI. Com 18 estava tocando ao lado de Lanny Gordin e integrou o quinteto de Nelson Ayres, pré-Pau Brasil, estreitando as relações com Azael, que trocava visitas com Nelson. Segundo Azael, o Pau-Brasil nasceu em um encontro de músicos em sua casa. Em outra frente, “Rodo” integrou também o Symetric Ensemble: Felix, Stroeter e Lelo Nazario. O homem de Wolfsburg explica a “parceria composicional com o Lelo”: ela “se resumiu a uma tournée na Europa que fizemos sob o nome de ‘Symetric Ensemble’. Incluía também o Rodolfo Stroeter no baixo e eu tocava clarinete em algumas músicas. Os ensaios tinham lugar na escola do Zimbo Trio, o CLAM. Fechavam a gente lá por duas horas durante o almoço. Pro ‘Symetric’ tínhamos escrito uma meia dúzia de duetos de piano, e eu na ocasião fiquei especialmente contente com o nome que o Lelo me deu (a alcunha que eu mais gostei): ‘o homem de Wolfsburg’. Wolfsburg é a cidade onde eu nasci. Fomos muito bem recebidos na Franca, Alemanha e Suíça, mas pelo que eu lembro em São Paulo só conseguimos um concerto-palestra na ECA.”.

Dois canais – A Divina Increnca transcriada

A integração da banda ocorria também nas amizades comuns e contatos fundamentais. Vicente Salvia, o “Viché”, possuía um estúdio, o JV. Stroeter e Azael eram músicos freelancer de estúdio e eram freqüentemente contratados pelo amigo, que confiou em toda a capacidade do DI oferecendo condições para gravarem os discos. Já era de se esperar essa via, a mesma adotada pelo Grupo Um, com Marcha Sobre a Cidade. Um porém deu mais charme ao Lp homônimo do Trio. O JV não era equipado com piano; a solução foi reservar uma das salas do Teatro Funarte, localizado na Barra Funda, para gravarem o disco.

Lelo Nazario denunciou em um telefonema: o disco foi gravado em apenas dois canais no Funarte e masterizado no próprio JV, trabalho feito entre julho e setembro de 1980. Difícil também foi crer em Felix, quando disse que “o disco foi gravado em dois dias seguidos: um para montar, fazer testes de som e gravar os primeiros takes e o segundo para gravar o restante, mais os takes alternativos. Hoje em dia ‘pega mal’ gravar em dois canais, mas naquela época era normal. A gente era treinado pra botar em dois canais tudo o que queríamos ouvir e na dosagem certa. O engraçado disso é que hoje muitas vezes sou chamado para fazer mixagens de gente que tem os aparelhos e os canais, mas carece de ‘ouvidos’. O técnico de som do disco era o Viché; tanto ele como o Lelo conseguem com uma lata e uma corda fazer um violino Stradivarius soar do jeito que o próprio Stradivarius imaginou, mas nunca conseguiu!”.

O Lp apresenta temas fantásticos e de fato os dois canais devem ter potencializado alguns pontos do disco. Um manifesto free-jazz, desde a concepção até os aparatos técnicos, a alforria das partituras. O que se nota no disco é um passeio de cada integrante sobre a mesma superfície; sempre se cruzam, mas tomam caminhos diferentes. Como gosta de ressaltar Azael, a regra “tema-improvisação-tema” é destruída pelo conceito desenvolvido com os anos de estudo. Já o Cd, resultado do meticuloso trabalho de Lelo Nazario (dez meses para re-masterizar o Lp original), desvenda detalhes como a introdução de sopros nos primeiros segundos de “Cheguei Lá e Tal…”; traz a adição de Viva Rodgers; um take alternativo de “Cheguei Lá e Tal …”; e a inédita “Peróla”, também em duas versões. Linhas de baixo surpreendentes, que, mais encorpadas, parecem ter sido executadas novamente, e uma bateria que continua certeira, mas certamente soa mais seca, são provas dos comentários de Azael quanto à adaptação da mídia analógica para digital: “A partir de suas características, limitação de tempo muito menor que o vinil, o que possibilitou as faixas bônus, e audição contínua, inexistência de lados, pude desenvolver uma ordem de músicas mais sinfônica, com repetição de temas. A motivação para o tratamento de áudio me despertou para as notas escritas no encarte – como as do ‘Rodo’ e do Felix – trazendo um pouco mais de luz a um trabalho tão intrincado. Criei inclusive uma faixa totalmente inédita, a partir da idéia que hoje só se ouvem singles e IPod, usando a voz do Teco [Cardoso, ] e material do próprio DI. Uma metalinguagem”.

Vale destaque o trabalho artístico de ambos os formatos do trabalho do DI. O Lp traz em tamanho ampliado (cada lado da capa do disco extrapola em 1 cm a medida normal de uma capa) um cartoon do já falecido Miécio Caffé (1920-2003), pesquisador e cartoonista que possuiu o maior arquivo de música brasileira (doado ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo) e registrou o nascimento da bossa nova e passou por todos acontecimentos musicais até os anos 2000. Sobre a escolha da capa do disco, Felix revelou a sistemática do trabalho do DI, as já citadas divergências: “Esse é um bom exemplo da dinâmica de ‘polêmica interna’ do DI! A idéia de chamar o Miécio para fazer a capa foi idéia do Azael, e onde eu diria que conteúdo e capa do disco são ‘opostos que convivem’, o Azael vai ver que diria que são ‘opostos integrados que se chocam’”.

Heterônimo

Obra completa. Trabalho feito com a maestria dos eruditos delinqüentes. O Divina acabou numa noite em 81, no mesmo Funarte em que gravaram o Lp. Em um show a que Stroeter preferiu não comparecer – o que não prejudicou encontros futuros, mas apresentou heterônimos, como o de Bananére. Contraditoriamente não eram mais divinos nem “increncados”, e sim um “Kaiser” e uma “Eminência Parda”. De fato, o profundo conhecimento musical pintou o Divina e os paradoxos ilustraram, com grande requinte, a Increnca.

Uma resposta

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  1. Alexandre said, on dezembro 11, 2011 at 8:24 pm

    Boa tarde!

    Ontem assisti na TV Cultura um programa apresentado pelo Teco Cardoso, onde ele mostrou uma apresenta;áo da Divina Increnca, Gostei muito realmente um trio de peso. vou atras do CD se existir.

    Um abrc.
    Alexandre


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